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30.5.08

A difícil arte de escrever sobre nada

João Pedro morreu mantendo uma relação de respeito com aqueles que dominavam a arte da escrita. Seu interesse girava em torno de um tipo de texto: a crônica. João Pedro tinha especial gosto por essa categoria porque achava que as letras deveriam servir o máximo ao cotidiano. Mais do que isso, João Pedro achava que os grandes feitos haviam se tornado grandes justamente porque alguém escrevera muito bem sobre eles. Isso significa, para ele, tanto dominar a técnica quanto possuir um olhar apurado sobre as pequenas coisas. Mas essa visão microscópica demandaria alguma energia.

Outra coisa que o indignava era que não tinha nem uma pequena parte do vocabulário dos escritores que admirava. Tinha que trabalhar um pouco mais para entender nomes de tantos pássaros e árvores que habitavam seus livros favoritos, mas que sua infância na selva de pedra urbana havia suprimido. Curiós, cambacicas e colibris eventualmente eram confundidos com plantas, mas sempre salvos por algum dicionário.

João Pedro se tornou literariamente frustrado no dia em que se deu conta de que nada acontecia a sua volta. Ele ainda insistia que sua vida era tão tediosa e comum que sempre lhe faltaria experiência prática para extrair alguma poesia da fila da padaria, mesmo indo lá todos os dias. Com vergonha, conformou-se que sua rotina de levantar pela manhã, escovar os dentes, barbear-se e tomar banho nunca estampariam as páginas de algum periódico. Nunquinha. Nem mesmo serviriam para estampar um poema no ônibus. Queria estar entre Quintana e Nietzsche, e dominar a arte dos aforismos. Quem sabe ganhar as janelas dos coletivos. Nem aforismos, nem crônica, João Pedro foi especialista em resignação.

Nem mesmo a sua luta atrás da arte de escrever lhe inspirou.